Todas as segundas-feiras, a paisagem muda no coração da Praça do Comércio. Ao lado do histórico pelourinho, edificação símbolo de autoridade e condenação, troca-se o pecado pelo ritmo do atabaque, do cavaquinho e do pandeiro. É o Samba da Restauração, em frente à Igreja de São Bartolomeu – uma típica roda de samba, feita por trabalhadores brasileiros.
Foi em abril que Roberto Félix se viu impedido de fazer o que mais gosta: frequentar rodas de samba. «Não tinha oportunidade de participar, de ouvir e de frequentar as casas em que o samba acontecia, por causa do meu [horário de] trabalho. Então, junto com o meu amigo, o Ronaldão, proprietário da Taska do Ronaldão, elaborei o projeto Samba da Restauração para, justamente, privilegiar as pessoas que, como eu, não tinham o final de semana disponível para curtir um samba.»
A dupla decretou a segunda-feira, dia de folga de Roberto – à época funcionário do Empório do Tuca, na Rua Visconde da Luz – e de grande parte dos trabalhadores da restauração, como o dia do samba em Coimbra. O local de trabalho passou a ser também de lazer e recreação, apesar de a maior parte do colectivo de brasileiros não ser músico profissional, mas assumir a música também como um modo de vida.
Alfredo Alves Filho, conhecido na rosa de samba como Júnior, trabalha na área da administração mas, nas noites de segunda-feira, é ele que dita o ritmo da praça com a sua voz e o seu cavaquinho. Nascido em Florianópolis, no sul do Brasil, é frequentador de roda de samba desde a adolescência e a sua surpresa maior foi perceber que o público que se junta ao redor do grupo na praça da Baixa coimbrã é totalmente diverso. «Não é só a comunidade brasileira que vem nos prestigiar. Os turistas sempre param para nos ouvir, também os portugueses e imigrantes de diversas nacionalidades. É um orgulho imenso, porque gostamos de ver todos curtindo a nossa música.»
Pedro Sáfara, músico brasileiro residente em Coimbra há mais de uma década, diz que o Samba da Restauração funciona como uma «espécie de emulação do final de semana do trabalhador brasileiro comum» e, sem grandes pretensões, acabou por «trazer uma vida para a Praça do Comércio que não tinha até então».
Sáfara não samba, mas observa cuidadosamente o movimento orgânico que se forma num dos locais mais tradicionais da cidade à segunda-feira e considera que é uma oportunidade de ver, além do gingado, «um retrato da imigração brasileira em Portugal tão entusiasmado quanto bonito».
A arte do encontro
Como já imortalizou Vinicius de Moraes, um dos maiores compositores brasileiros, «um bom samba é uma forma de oração». Em complemento, pode-se dizer que um bom samba é também uma forma de encontro e de diversão, duas palavras que bem definem o que é o Samba da Restauração. Para Ronaldão, percussionista e co-fundador do projeto, o resultado mais importante é a restauração da sua própria alegria de viver. «Não sou músico profissional, mas quando morava no Brasil era samba de segunda a segunda. Aqui, isso mudou. Minha vida era do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Comecei a ficar depressivo. Então, quando o Roberto me falou do projeto, eu entrei logo. Quando estou aqui, me divertindo com todo o pessoal, não penso em mais nada. É só alegria.»
A busca pela alegria proporcionada pela música também foi o que motivou Jeferson de Paula Lopes a querer saber do que se tratava e não demorou muito até que se juntasse ao grupo com seu violão e retomasse, ainda que só por diversão, a sua vida de músico. Foi a sua profissão no Rio de Janeiro por mais de trinta anos, até decidir vir para Portugal e trabalhar na construção civil. «Fazia três meses que eu estava em Coimbra, trabalhando na construção civil. Eu já estava sentindo muita falta da música. Estava ficando maluco dentro de casa e, então, descobri o Samba da Restauração e todos me acolheram muito bem. Eu costumo dizer que fico sem tudo, menos sem a música, está no sangue.»
Se «a alegria é a prova dos nove», como disse o poeta brasileiro Oswald de Andrade, é também o samba a prova mais nítida de uma cultura que não só confere uma identidade aos brasileiros fora de suas terras, como funciona como espaço de acolhimento ao redor da música.
Milanna Chaves Nagib, carioca residente em Coimbra há cinco meses, afirma que conhecer o Samba da Restauração foi fundamental para sua adaptação além-mar. «Assim que eu cheguei na cidade, eu busquei saber se havia samba por aqui, porque eu sabia que era uma coisa que eu sentiria muita falta. Fiquei muito interessada quando descobri a existência do Samba da Restauração. Quando vim pela primeira vez me apaixonei e, desde então, venho sempre que eu posso. Eu até troquei o horário das minhas aulas de segunda-feira para conseguir sair a tempo de chegar aqui.»
Para Ronaldão, percussionista e co-fundador do projeto, o resultado mais importante é a restauração da sua própria alegria de viver.
Para Millana, o samba «é uma energia que acolhe, que abraça. As pessoas se olham, sorriem umas para as outras, dançam juntas, conversam. O samba tem a ver com isso, com conexão». É esse clima de acolhimento que faz de Adriana Alves uma frequentadora assídua do Samba da Restauração. Há dois meses que, religiosamente, guarda as noites de segunda-feira para desfrutar das músicas que tanto gosta e foi tanta a simpatia com o evento que já passou a palavra: agora leva com ela o irmão, Rosival Alves, e a amiga, Renata Oliveira.
O comércio ao redor do samba
Não são apenas a alegria e o acolhimento as marcas registradas do Samba da Restauração. O projeto significou, em termos práticos, um aumento significativo no movimento e no fluxo de consumo para os comerciantes da Praça do Comércio.
Para o empresário Robert Souza, proprietário do Bar da Coral, parceiro e motivador do projeto Samba da Restauração, aquilo que era uma simples reunião de amigos num dia em que o bar encerrava suas atividades, se transformou num dos dias mais procurados da casa. «A segunda-feira já é um dia esperado na Coral, um dia muito expressivo em que há uma rentabilização significativa. E é bonito ver o samba acontecendo, porque eu apoiei desde o início. É gratificante ver que se mantém e que o Bar da Coral pode oferecer uma cerveja mais barata nesse dia para que os trabalhadores possam, de fato, ter um lugar para se divertirem e se sentirem à vontade.»
Não é apenas o comércio local que beneficia. Informalmente, outras histórias se cruzam e são cheias de bonitos propósitos, como a de Diovanna Reis que viu na roda de samba uma oportunidade para conseguir uma renda extra vendendo os famigerados brigadeiros, tão brasileiros quanto o samba. Ela espera que o dinheiro sirva para trazer o filho Arthur do Brasil.
Não foi apenas a Praça que o Samba da Restauração restaurou. Parece ter nascido uma identidade, um movimento orgânico e, sobretudo, popular.
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