A Câmara Municipal de Coimbra tem aberto várias decisões autárquicas à discussão pública. No entanto, como refere Ana Bastos em relação ao Plano Diretor Municipal, por exemplo, «o número de participações foi praticamente residual». A vereadora da Câmara Municipal (CM) de Coimbra com as pastas do Planeamento Territorial, Gestão Urbanística, Infraestruturas e Espaços Públicos, Estudos e Projetos Estratégicos e Transportes e Mobilidade afirma que concorda com Nuno Pinto e que a comunidade de Coimbra tem «uma participação muito reactiva». «Mas é a população. É a nossa mentalidade e a nossa cultura», continua. «Para todos os efeitos, tivemos momentos de participação, foram sobejamente divulgados e recebemos muito poucas participações.»
Nuno Pinto é o especialista em planeamento urbano que levou a cabo um inquérito geolocalizado e um Workshop de Geodesign organizado pela Coimbra Coolectiva, que recebeu os contributos voluntários de mais de 150 cidadãos em 20 dias e a participação de mais de 23 pessoas, com diferentes perfis, numa sessão de seis horas onde foram reunidas as ideias, negociadas e afuniladas num resultado final. Entre os participantes e observadores estiveram moradores e trabalhadores da zona em questão, especialistas das áreas de arquitectura, urbanismo, engenharia, a Câmara Municipal de Coimbra, a Infraestruturas de Portugal e a Metro Mondego. «Coimbra é uma cidade com uma tradição longa em planeamento e estratégia, há uma massa crítica comunitária muito estruturada, é muito mais vibrante do que há 10 anos» diz Nuno, que foi professor na Universidade de Coimbra e que explica que o Geodesign está a ser usada noutros países porque «induz as pessoas a negociarem», permite que «todos os participantes assistam às alterações em directo» e promove «um nível de educação com um potencial muito grande ao longo do processo».

«Já se sabe quanto vai custar a nova ponte [rodoviária que irá substituir a ponte ferroviária]?», atira Luís Neto da audiência. «Não. Há várias fases do projecto. Só em fase de estudo prévio é que teremos estimativas de custo. Estamos nessa fase, de um plano. Uma passagem superior é muito mais barata do que um túnel», responde Ana Bastos. E o túnel em Monte Formoso, que é defendido por alguns cidadãos como alternativa? «Eu sou completamente a favor do túnel. Foi a solução que arranjei como variante à Casa do Sal», responde a vereadora, mas «já depois de ter entrado na Câmara Municipal de Coimbra identificou-se a instabilidade da encosta. Seria uma solução extremamente cara e instável». «Eu continuo a defender o túnel, mas não como alternativa à ponte. Eu diria que é uma variante ao anel à Pedrulha. Quanto custa? São estudos extremamente caros. Por mim, a A13 é fundamental que siga. Sou obrigada a criticar a solução em relação ao IP3 que estamos a implementar. Perde-se a oportunidade de algum dia vir a melhorar», declara Ana Bastos.
A conversa directa entre cidadãos e autarquia continua, sentados à sombra dos claustros da Liga dos Combatentes, na Rua da Sofia, nesta tarde quente de Primavera. Há outra ponte em questão que teima em entrar na conversa, a nova ponte que servirá para a Alta Velocidade chegar à nova Estação Intermodal (que vai substituir Coimbra B) e que será construída sobre o Choupal. A vereadora esclarece que se trata de «aproveitar o actual canal e a ponte lá está, que vai ser desmantelada e feita uma nova, temos um acréscimo de externalidades. Não vou dizer que são insignificantes, qualquer árvore que se abata não é insignificante, mas são externalidades relativamente moderadas.»

A justificação para a construção da nova ponte rodoviária é o alívio do tráfego. Mas «qual é a natureza do tráfego local e do tráfego de atravessamento da Ponte Açude?», pergunta Gonçalo Quadros, do público. Ninguém tem essa informação. «O atravessamento diretíssimo é 60%, mas juntando ao resto, como o tráfego para zonas como Santa Clara, é 80% do tráfego», responde Ana Bastos. Filomena Pereira, das Infraestruturas de Portugal, afirma que existe um estudo de tráfego «mas é interno, para estudo interno de projectos» e acrescentou: «Julgo que o que existe a nível público é suficiente.» O (des)investimento do Estado noutras cidades que não Lisboa também vem à baila e Ana Bastos é peremptória: «Isso é sempre uma fatalidade numa cidade como Coimbra. O dinheiro nunca é decidido aqui.»
A falta de informação foi uma das dificuldades sentidas pelos participantes e dinamizadores do Workshop de Geodesign, para fazer contas, para compreender a gestão territorial e para tomar decisões conscientes e sustentáveis. «Nós não tínhamos a informação toda», sublinha Nuno Pinto. Tanto as responsável da CM de Coimbra como da IP disseram que fornecem a informação disponível «se for pedida».
Pinto admite que «não é um bom resultado porque não se encontrou uma boa solução para todos», mas é um «resultado positivo» para ele e para o engenheiro Hrishikesh Ballal, com quem concebeu este exercício inovador de participação cívica, pioneiro em Portugal, porque «ilustra bastante o debate que corre na cidade». «Isto deixou-me bastante satisfeito», remata.

A discussão ilustrou os debates em torno de questões chave: a convergência sobre valores chave da zona e do programa (elementos identitários, oportunidade para a cidade, qualidade de vida) e o entendimento da complexidade do problema (tráfego, custos, oportunidade do PPEIC, incertezas sobre perspectiva da IP, dados disponíveis).
Acordo final (amplamente debatido) por uma proposta comunitária com 2 variantes:
- Solução Túnel – propõe túnel IC2-Rotunda da fundição de Coselhas combinado com
desnivelamento dos movimentos IC2 Sul-Açude na rotunda do Almegue, reforço
da circular interna e externa de Coimbra - Solução Nova Ponte: propõe uma nova ponte rodoviária nos mesmos termos da versão proposta
do PPEIC à data (6 Abril 2024)
As duas variantes partilham todas as propostas, incluindo a demolição do viaduto da
Rua do Padrão, com excepção da alternativa ao mesmo.
Convergência na versão final sobre princípios programáticos determinantes:
- Contínuo urbano Baixa-Monte Formoso-Loreto
- Contínuo de estrutura ecológica Coselhas-Choupal-Campos do Mondego
- Demolição dos viadutos da Rua do Padrão
Convergência sobre demais propostas relativas a:
- Habitação (acessível);
- Renaturalização/valorização da Infraestrutura Verde (Choupal e vale de Coselhas);
- Mobilidade adequada ao espaço urbano (zona 30, modos activos, integração modal EIC);
- Reserva de solo/edifícios de interesse para futuros equipamentos públicos devido a factores críticos das respectivas localizações – Centro Comunitário em Coimbra A, Centro Cultural na Rua de Aveiro, Novo Instituto de Promoção do Paisagismo e Biodiversidade (Instituto Ribeiro Telles)
Ambas as variantes são idênticas, incluindo a demolição dos viadutos da Casa do Sal para dar continuidade co-existente, urbana Baixa-Loreto e verde Coselhas-Choupal e o anel da Perdulha para concluir a circular externa da cidade, à excepção das alternativas aos viadutos da Rua do Padrão.

«Demorou mais de uma hora a discutir o atravessamento do rio Mondego e a existência dos viadutos ou não», relata Nuno Pinto. A vereadora lamenta ver «a cidade muito focada para discutir esta dualidade no meio de tantas outras, nomeadamente o desenvolvimento territorial». Também foram manifestadas incertezas sobre a perspectiva das Infraestruturas de Portugal, cuja representante se escusou a prestar declarações.
Nuno Pinto refere que «a estação não é só um espaço de mobilidade, é um espaço muito relevante para a cidade» e que, no caso da Estação Nova, prestes a ser desactivada, «há vários exemplos na Europa e no mundo onde estes espaços depois não são aproveitados pela comunidade e queremos evitar isso». Vários participantes aproveitaram esta apresentação para questionar o executivo sobre a conciliação de áreas, de uma estratégia global e social para a cidade, nomeadamente a oportunidade que a obra representa para se começar a desenhar uma distribuição mais justa da habitação em Coimbra. «O que está aqui em questão é o uso, não é o tipo de habitação. Não me faça essa a pergunta, eu não sou da área social», foi a resposta da vereadora. «Há um plano de habitação social, este é de desenvolvimento territorial, nem sei se há convergência. São assunto diferentes.
Ana Bastos congratulou esta iniciativa da Coimbra Coolectiva e manifestou-se «feliz, porque na verdade tudo o que aqui foi apresentado está subjacente ao plano que está em desenvolvimento». Nuno Pinto explicou que o projecto do município está em fase avançada, mas ainda processualmente longe de entrar em consulta pública, por isso, o actual processo participativo tem um carácter de programa. «Estes resultados podem contribuir para uma decisão que ainda vai ser tomada» e o modelo de participação promovido pela Coimbra Coolectiva pode ser replicado como modelo para o futuro no concelho (…) O princípio de um possível modelo Coimbra de participação e representação democrática que lidere uma revolução nos modos e práticas de participação cívica no contexto».
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