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Suraras do Tapajós

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Festival MATE

Entre o Mondego e o Tapajós o ritual musical das guerreiras indígenas que cruzaram o Atlântico

A convite do Festival MATE, as Suraras do Tapajós trouxeram sua ancestralidade e resistência ao Convento São Francisco. O festival reúne vozes lusófonas para o diálogo cultural, arte e inovação.

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Fotografia: Juliano Mattos e Vilma Reis

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Coimbra viveu um raro cruzamento de águas: às margens do rio Mondego chegaram as vozes e os tambores ancestrais do rio Tapajós. O concerto aconteceu neste sábado no Convento São Francisco e marcou a estreia do coletivo pioneiro de mulheres indígenas do Pará, Brasil, as Suraras do Tapajós, em Portugal. O grupo trouxe uma mistura de música, história e resistência, num ritmo que parecia uma extensão da natureza amazónica.

Vozes e resistência do Tapajós

O nome «Suraras» significa «guerreiras» em Nheengatu, língua indígena ainda falada na Amazónia. Mais que um conjunto musical, as Suraras do Tapajós são uma associação nascida de uma história coletiva e de luta. Criado em 2016 por jovens mulheres indígenas de diferentes etnias, o coletivo termina suas reuniões com o grito das Suraras. A formação que veio a Coimbra contou com Carol Pedroso, Adelina Borari, Estefane Galvão, Jaciara Borari, Marina Arapiun, Samara Borari e Vall Munduruku, dos povos Borari, Munduruku e Arapiun.

A principal expressão artística do grupo é o Carimbó, manifestação cultural paraense tradicionalmente executada por homens, que elas reinventam para ecoar suas vozes e lutas. Entretanto, a associação atua também fora dos palcos, desenvolvendo projetos com o território feminino em Santarém, promovendo a economia local e o empoderamento político, além de enfrentar desafios sociais relacionados à defesa cultural.

Vall Munduruku, presidente da associação e percussionista, explicou que a música é uma arma de luta, capaz de tocar corações e mentes, levando essas vozes para além dos limites geográficos. Ela destacou que cada oportunidade fora do território é uma chance de ampliar a mensagem sobre resistência e a luta das mulheres indígenas.

Estefane Galvão, banjista do grupo e uma das diretoras da associação, acrescentou que «a música é um ato de resistência, uma ponte que conecta a cultura indígena com toda a humanidade».

As águas claras do rio Tapajós, que desaguam no Amazonas à frente de Santarém, fazem parte dessa história. Santarém amazónica, ao lado da homónima portuguesa e de cidades como Óbidos e Alenquer, preserva memória e território fortemente ligadas ao rio — que tem sofrido recentemente com o impacto do garimpo ilegal, responsável pelo escurecimento das águas, desmatamento, contaminação por mercúrio e perigo ambiental.

Inserido num contexto de debates acalorados sobre imigração em Portugal, o concerto contou com uma plateia portuguesa envolvida, interessada em apreender e acolher a cultura dos povos originários do Brasil. O momento simbólico do final foi o banho de perfume de patchouli, raiz amazónica, borrifado no público junto de raminhos de alecrim, ritual que uniu mundos numa celebração sensorial.

Diálogo e preservação além-fronteiras

A chegada das Suraras a Portugal foi possível graças ao Festival MATE, que realiza em Coimbra encontros de arte, tecnologia, educação e inovação. O evento busca fomentar diálogo entre territórios culturais lusófonos, reforçando a sustentabilidade e a criação contemporânea, e criando plataformas para vozes como as das Suraras se difundirem além-fronteiras.

Mais que um espetáculo, a passagem delas por Coimbra foi uma imersão política, uma ponte sensorial entre as gentes do Mondego e do Tapajós, ressaltando a ancestralidade, a resistência feminina e a proteção dos territórios originários como urgências do futuro.

O concerto iniciou com Marina Arapiun pronunciando um trecho em Nheengatu: «Kirĩbasawa Yúri Yí-Itá / Yamaramunhã Rikué-Itá Yané Mirasá-Itá Rupi / Nheenga Mupirãtã-Pawa / Surara-Itá Tapajowara» que significa «Lutamos pelas vidas dos nossos povos / Somos a voz da resistência / Somos Suraras do Tapajós».

Esta semana, dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram o papel ativo dos povos indígenas no fortalecimento de suas línguas. O último Censo Demográfico brasileiro apontou 295 línguas indígenas ainda faladas no país, frente às estimativas de 1.000 a 1.500 línguas faladas no século XVI.

O Brasil abriga o maior número de povos indígenas isolados no mundo, com pelo menos 124 grupos vivendo sem contato com o exterior. Esses grupos estão entre os 196 povos indígenas isolados identificados globalmente, ressaltando o papel do país na preservação dessas culturas vulneráveis.

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