A Metro Mondego, projeto estratégico para a mobilidade na região de Coimbra, vive um momento de grandes desafios e transformações. A recente decisão da Assembleia Geral da empresa, ao abrigo do artigo 26.º do Estatuto do Gestor Público, definiu a substituição dos vogais executivos do Conselho de Administração, entre eles Teresa Jorge, a poucos meses do encerramento do atual mandato. Esta medida, que permite a demissão por mera conveniência sem necessidade de justificação formal, suscitou surpresa e debate público sobre a governação e o futuro do sistema.
Responsável por funções-chave no desenvolvimento do Metrobus, Teresa Jorge acumula experiência na gestão de infraestruturas e na articulação entre as múltiplas entidades envolvidas no projeto. Neste momento crítico, enquanto o sistema atravessa a fase experimental da operação entre Portagem e Vale das Flores, tendo em vista a entrada em serviço da primeira fase completa, o seu testemunho ganha particular relevância.
Na entrevista que se segue, Teresa Jorge aborda a forma como tomou conhecimento da sua demissão, comenta a operação preliminar recentemente iniciada, explica os requisitos especiais do troço suburbano e faz um balanço da sua contribuição para o projeto, apontando, ainda, desafios que permanecem por superar, nomeadamente ao nível da comunicação e esclarecimento à população.
CC – O que lhe foi comunicado como justificação para a sua demissão do cargo de vogal executiva da Metro Mondego, a poucos meses do término do mandato?
TJ – Não me foi comunicada nenhuma justificação. Tomei conhecimento formal pelo conteúdo da agenda da reunião extraordinária da Assembleia Geral da Metro que se realizou no passado dia 2 de setembro, que invoca o artigo 26º do Estatuto do Gestor Público, aquando do envio da convocatória aos acionistas da empresa.
CC – Qual a sua perspetiva pessoal sobre o motivo desta decisão? Esta substituição apanhou-a de surpresa ou já a considerava uma possibilidade?
TJ – Esta decisão apanhou-me de surpresa. Não me ocorreu que, na fase intensa de trabalho em que o projeto se encontra, em vista da entrada e serviço da sua 1º fase em breve, fosse tomada esta decisão. O mandato da Administração de que fiz parte terminava no final de 2025 e, naturalmente, considerava a possibilidade de não ser reconduzida, nessa altura.
CC – A abertura experimental da operação entre Portagem e Vale das Flores foi lançada de forma parcial, numa altura que surpreendeu muitos. Como avaliou esta decisão enquanto administradora: foi favorável ou contrária à “abertura” nesta fase e nestes moldes?
TJ – Foi unânime a decisão de promover uma fase intensa de testes, em ambiente real, para testar o funcionamento integrado das várias componentes do sistema (infraestrutura, autocarros, sistemas técnicos, gestão da operação e passageiros), permitindo fazer os pequenos ajustamentos e ultrapassar os problemas de infância que sempre surgem em sistemas novos. Chamámos a isto operação preliminar.
CC – Sendo uma operação de grande dimensão, que exige testes e, possivelmente, certificação, pode confirmar se o troço Portagem–Vale das Flores está, de facto, devidamente certificado e testado para o serviço experimental?
TJ – Sim, a Metro Mondego assegurou que estavam garantidas todas as condições de segurança para a realização da “operação preliminar”. O IMT, entidade que fará o licenciamento da futura operação comercial, viabilizou estas ações; naturalmente a oposição desta entidade teria determinado a sua não realização.
CC – A extensão da operação experimental até Serpins chegou a ser considerada? Quais foram os principais fatores para não avançar imediatamente com toda a linha?
TJ – No momento em que for possível oferecer circulação até Serpins no âmbito de uma operação regular, estaremos em condições de iniciar a exploração comercial, concretizando a 1ª fase, que será entre Serpins e Portagem. A exigência da operação no troço suburbano é muito maior por este troço ser em via única (é preciso ter um sistema, testado e certificado, com redundâncias, que garanta que nunca estará mais que um veículo em sentido contrário em cada secção de via única).

CC – Olhando para o seu percurso na Metro Mondego, qual considera ter sido o seu maior contributo ou motivo de orgulho neste projeto tão relevante para Coimbra?
TJ – Espero ter contribuído para a boa articulação e cooperação entre as muitas entidades envolvidas neste projeto e acredito ter ajudado a afirmar o Metrobus como elemento central do sistema de mobilidade deste território.
CC – E, pelo contrário, que aspetos a desiludiram ou gostaria de ter concretizado e não foi possível?
TJ – Gostaria de ter conseguido comunicar de forma mais clara e abrangente as características do sistema e a complexidade do projeto.

