«Já vivi muita coisa na rua, aqui em Coimbra. Já tive muito frio, muita fome, já estive muito doente. Mas o que de pior me aconteceu foi sentir a indiferença nos olhares das pessoas. Na rua, quem mais ajuda é quem menos tem», diz Manuel Augusto Simões Alves que não tem casa há cinco anos. Cerca de 40 pessoas em situação de sem-abrigo vivem atualmente em Coimbra. Encontramos algumas destas pessoas e ouvimos suas histórias, carregadas da diversidade do que significa viver na rua. Mostramos ainda quem voluntariamente trabalha para que ninguém precise morar em um não lugar e fomos conhecer a distribuição alimentar no Centro de Reforço Solidário de Coimbra.

No mundo daqueles que não moram onde gostariam, está aquele que vive em espaços de utilização pública como jardins, estacionamentos, vãos de escada, entradas de prédios, casas abandonadas. A perda de moradia geralmente acontece dentro da seguinte equação: ruptura de um relacionamento familiar combinada com a falta de escolhas económicas. Também existem casos de doença mental e dependência química. A experiência de ser desabrigado inclui a indignidade de viver sua vida privada em público.
Diferentemente do que acredita o senso comum, há uma infinidade de razões que podem levar uma pessoa à situação de sem-abrigo, mas existem alguns fatores principais que empurram alguém para o desalento: a falta de habitação acessível para pessoas de baixa renda e problemas de saúde – neste quesito as doenças mentais ocupam o topo da lista. Pessoas que sofrem de falta de moradia crónica vivem 30 anos a menos, em média, do que as outras. Não ter acesso a banhos regulares é considerado um dos aspetos mais humilhantes de alguém em situação de sem-abrigo e um fator de potencial doença. Muitos ficam desabrigados quando fogem de um relacionamento abusivo; mães que saem de casa quando descobrem que os filhos são violentados; mulheres que sofrem de violência doméstica; filhos que são expulsos da casa dos pais por causa da sua orientação sexual.
«Estava numa fábrica abandonada»
A maioria das pessoas sai da experiência de ser desalojada por conta própria e se reconecta com a família e os amigos. Mas existe uma minoria que não consegue sair por conta própria devido a algum tipo de deficiência e precisam de estruturas para ajudar. Manuel Alves tem 48 anos e é pintor na construção civil: «Sou sem abrigo, pronto, é isso que sou. Nos últimos cinco anos não tive casa, meu rendimento mínimo é pouco para pagar um quarto e alimentação e por isso estou na rua. Não uso drogas, eu só vivo na rua porque não consigo pagar uma casa, mas sei que quando olham pra mim pensam que tenho vícios». Manuel conta que vivia com os pais mas, quando a mãe morreu, há nove anos, foi expulso de casa pelo pai e desde então não consegue suportar as despesas de uma habitação.

A insuficiência financeira também abalou António José Pinheiro da Rosa, de 58 anos, que vive numa casa custeada pelo irmão em São Martinho do Bispo. Vem a Coimbra todos os dias buscar as refeições disponibilizadas em centros de acolhimento: «Há muitos anos me puseram fora de casa, passei por muitas situações ruins mas aprendi a ter calma na vida, ela é muito diferente do que eu imaginei».
Elisa Gouveia Amaral trabalha seis horas por dia como funcionária das limpezas na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Porém, só consegue pagar um quarto, em Santa Cruz, onde vive com outras mulheres: «Queria viver numa casa só minha. Onde vivo, o quarto de banho é para todas e não posso cozinhar», reclama Elisa, que faz suas refeições no Centro de Reforço Solidário de Coimbra, todos os dias. O casal Honorato Coelho e Isabel Salgado estava a viver numa fábrica abandonada em Setúbal: «Na semana passada, juntamos o que tínhamos e viemos para Coimbra, estamos a dormir numa pensão».

A família colombiana Bustos Castro chegou a Coimbra no dia 13 de Julho. Ádrian veio para Portugal com a mãe, Clara, e a filha, Evelin, em condição de refugiados. Viviam em Bogotá e trouxeram algumas economias com que pagam as dormidas no Hotel Avenida. As refeições são feitas no Centro de Reforço Solidário. Ádrian conta que já está inscrito no Centro de Emprego e Formação Profissional e, com o primeiro salário do futuro emprego, vai custear as necessidades da filha, ainda criança, que quer aprender português.
Barbo Costeluz é romeno e tem 32 anos. Vive em Coimbra há nove. Faz questão de reforçar que tem trabalho e faz todos os descontos para as finanças e segurança social, e pontua que o novo endereço de distribuição alimentar é «inumano» porque obriga a todos receberem as refeições «no meio da rua».

Luís Miguel Roque acabou de completar 60 anos. Trabalhava no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra mas foi dispensado durante a pandemia: «Sempre trabalhei em hospitais, primeiro no Sobral Cid e depois nos CHUC. Na pandemia fui despedido e, a partir daí, fui fazendo o que aparecia: trabalhei em restaurantes mas o meu médico apanhou-me a trabalhar e mandou-me para casa. É que tenho muitos problemas de saúde. Vivo com o rendimento mínimo e recebo ajudas, como estas refeições. Quem dá de boa vontade, a mais não é obrigado… mas aqui, neste ambiente, há todo o tipo de pessoas e há sempre aqueles que se queixam que o comer nunca é bom; a esses, eu chamo de pobre e mal-agradecido. Eu não sou desses».
A rede de apoio
A vereadora da Câmara Municipal de Coimbra com o pelouro da Ação Social indica que cerca de 80 pessoas que viviam em situação de sem-abrigo em Coimbra, hoje estão inseridas em Centros de Acolhimento Temporário, pensões ou quartos pagos pelos serviços sociais. Ana Cortez Vaz explica que, em maio, foi formalizada, pela Câmara uma rede de apoio a pessoas em situação de sem-abrigo e sem-teto, que conta com 18 parceiros para fazer o diagnóstico, o planeamento e ativar as teias de respostas, potenciando o trabalho do grupo.
«Incentivamos os parceiros desta rede a mostrar a essa população que existe uma saída, não precisam estar na rua. Mas sabe qual é o maior problema? Esta saída tem regras. Entre elas o recolhimento noturno, não poderem consumir álcool ou drogas, não poderem ter relações sexuais nas instalações. Há também quem manifeste esquizofrenia, bipolaridade, outros problemas de saúde mental e, na rede, contactamos a entidade para a qual podemos encaminhar estas pessoas», explica Cortez Vaz.
Fazem parte do coletivo a Administração Regional de Saúde do Centro, o Instituto de Segurança Social; Instituto de Emprego e Formação Profissional; Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel; Associação Integrar; Associação Nacional de Apoio a Jovens; Associação Todos Pelos Outros; Cáritas Diocesana de Coimbra; Centro de Apoio aos Sem Abrigo; Centro de Acolhimento João Paulo II; Cruz Vermelha Portuguesa; Centro Porta Amiga de Coimbra; Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional; Venerável Ordem Terceira da Penitência de S. Francisco; Polícia de Segurança Pública; Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares; Saúde em Português e a Associação O Ninho da Mariazinha.
Estivemos na distribuição do reforço alimentar noturno, numa quarta-feira, onde três voluntários estavam a fazer as entregas. Neste dia, o lanche trazia Bolas de Berlim e croissants simples, que tinham sido doados por um hipermercado. Algumas pessoas perguntavam se havia alguma coisa para beber e uma voluntária respondia, constrangida: «Hoje não tivemos contribuições de leite e café». A maioria das pessoas leva este reforço alimentar para consumir no dia seguinte, como pequeno almoço.

Aos sábados e domingos, a partir das sete da tarde, é feita esta distribuição de um jantar e de um reforço alimentar à população sem-abrigo de Coimbra, numa responsabilidade conjunta das equipas de voluntários com o pelouro da Ação Social da Câmara. Durante a semana, o reforço alimentar é entregue às 21h30 e nos feriados é feita a distribuição do almoço mais um reforço ao meio dia. São elaborados mapas mensais, com a definição das equipas a participar em cada dia de semana. Durante a realização da distribuição alimentar, é preenchida uma lista dos utentes abordados e nomes e números são depois encaminhados para a vereadora Ana Cortez Vaz, para uma análise dos dados.
Novo nome, outro endereço, algumas reclamações
No início de julho, a Câmara alterou o nome e o endereço do local de distribuição alimentar a pessoas em situação de sem-abrigo e em situação de pobreza e exclusão social. O Centro Municipal de Integração Social, que ficava no Pátio da Inquisição, na Baixa da cidade de Coimbra, passou a designar-se Centro de Reforço Solidário de Coimbra e a funcionar na Rua Figueira da Foz.

Em nota para a imprensa, a Câmara explica que neste novo endereço «manteve a distribuição alimentar a pessoas em situação de sem-abrigo e em situação de pobreza e exclusão social, nos mesmos dias e com as mesmas instituições a colaborar» e que a proposta dos serviços técnicos municipais refere que esta alteração do local permite uma poupança «de 1200 euros ao erário público», relativamente ao valor do arrendamento que era pago para as instalações do Pátio da Inquisição.
A nota evidencia ainda que «todo este trabalho assenta na premissa de continuar a dar uma maior dignidade à distribuição alimentar», «valorizando o trabalho em rede, evitando a duplicação de respostas e indo ao encontro das necessidades destas pessoas». O novo protocolo estabelece que o novo espaço é gerido pela Câmara, a quem compete o pagamento da renda e das despesas de manutenção, assim como a limpeza do espaço. Às restantes entidades parceiras compete «assegurar a distribuição alimentar, e outros serviços de apoio social».
O Ninho da Mariazinha
Uma das instituições que integra a rede Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo é o Ninho da Mariazinha, que apoia «quem nos procura», diz Leonor Santos, a presidente. A história do grupo começou em 1999, quando distribuíram 45 cabazes de Natal. Hoje ajudam cerca de 260 pessoas e já há alguns anos criaram a «Sopa da Mariazinha», um movimento que reúne e organiza dez grupos de voluntários que se revezam para distribuir refeições a pessoas em situação de sem-abrigo. Atualmente o fazem aos sábados, no Centro de Reforço Solidário de Coimbra. Tudo o que é confecionado pelo Ninho vem de doações, de particulares e empresas. Nunca receberam apoio estatal.
No início da tarde de sábado, 16 de julho, um dos grupos voluntários do Ninho se reuniu na cozinha da instituição, que fica em Sandelgas, para confeccionar a resposta alimentar entregue aos sábados às pessoas que apresentam um elevado nível de vulnerabilidade e carência económica. O trabalho é feito com muito critério e somos testemunhas de que, na verdade, a «Sopa da Mariazinha» é apenas o título da ajuda – Tirsa Santos, Ana Raquel Pimenta, Micael Nascimento, Isabel Duarte, Isabel Santos, Manuela Castro e Alice Maia fizeram neste dia uma sopa de feijão, um Rancho à moda do Porto, Arroz Doce e ainda providenciaram iogurte e fruta para todos.

Isabel Duarte trabalha no Ninho há três anos e tem vívida a memória de como entrou no mundo da cozinha de desalojados: «Voltava para casa já tarde da noite quando, perto da Estação Velha, vi um homem sentado no chão. Eu e meu marido paramos o carro e eu fui perguntar a ele se estava bem, que apenas respondeu: «tenho fome». Corri para casa, abri o frigorífico, só tinha ovos e uma pizza. Fiz uma omelete, aqueci a pizza, juntei pão, leite, café, voltei e entreguei. E foi então que tudo começou, ali, naquele olhar de agradecimento. É uma coisa que eu não consigo explicar. Desde esse dia eu cozinho para estes desconhecidos».
Alice Maia integra o Ninho desde a época que o grupo saía por Coimbra à procura de pessoas na rua para entregar refeições: «Começávamos sempre pelas Químicas. Lá, encontrávamos sempre gente a dormir. Também encontrávamos no Terreiro da Erva. Fazíamos tudo em nossos carros, depois reunimos mais algumas pessoas amigas, formamos um grupo maior. Um dia estávamos na Praça 8 de Maio, três carros cheios de sopa e pão, quando uma Polícia nos abordou a dizer para irmos embora, caso contrário chamaria o Presidente da Câmara. E chamou! Eu argumentei que só sairia dali depois de dar a sopa a todos que já estavam à nossa espera. Eles esperaram e conversamos, nos prometeram um espaço mais digno. Logo depois surgiu o Centro Municipal de Integração Social, no Pátio da Inquisição».

Alice enfatiza o que acha do novo espaço de distribuição das refeições: «Não é humano… nem aos cães devemos tratar assim, entregar uma sopa no meio da rua, para eles comerem onde? Sentados no chão? Não é só a fome que os leva pra ali, eles estão carentes de estar com pessoas que não têm medo deles, medo e repulsa», opina.
A coordenadora Tirsa Santos também pensa como Alice. Inclusive questionou formalmente a autarquia sobre um possível retorno para um espaço com as mesmas características do Pátio da Inquisição: «Perguntei se não voltaríamos a ter um espaço para acolhê-los com respeito nas horas das refeições, pois penso que estão a mudar o objetivo disto tudo, que é o de levar comida feita com carinho até um local digno, para eles virem se sentar e comer com tranquilidade. O Ninho, quando chegava, e chegava sempre com uma hora de antecedência, colocava música e começava os preparativos de entrega, trocando uma palavra amiga com eles, até que, no horário estipulado, iniciávamos a entrega das refeições. Mas houve uma reunião, com todas as instituições participantes, onde nos pediram para seguir um padrão em sistema take away. Não concordo, não precisa ser assim, podemos ser melhores».




